quarta-feira, 30 de julho de 2008

Entre o real e o imaginário

Em um piscar de olhos, entramos no sétimo mês. Isso significa que se a Lucia nascesse hoje, ela sobreviveria, ainda que mãe e filha passassem uns dois ou três meses no hospital. Eu tenho uma filha pronta! Ela se mexe muito, responde ao som da minha voz e encosta a cabecinha dela na parede da barriga pra eu fazer carinho. E quando eu ponho a mão na barriga e falo "toca aqui" ela bate com a mão. E quando eu pergunto o resultado de certas operações matemáticas ela responde com chutinhos. Perguntei quanto era dois menos um e ela respondeu com uma batidinha. Perguntei quanto era dez mais dez e ela quase quebrou as costelas da Ana. Aí resolvi tentar algo mais complexo e perguntei pra ela a raiz quadrada de menos um. Sabe o que ela respondeu? Nada! Deixou a cargo da minha imaginação, sinal que é uma bebê inteligentíssima, afinal a raiz quadrada de -1 é i, um número imaginário. Para completar, ela permitiu que a gente presenciasse um número musical, executado de dentro do útero. A sinfonia apresentada foi uma famosa obra performática de John Cage.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

O ataque do esquadrão anti-gatos

Enquanto a facção insensível da minha família se mobiliza após o almoço em um movimento anti-gatos, o plano de saúde o faz em um movimento anti-cobertura, jogando no nosso colo uma volumosa conta de hospital para aquela cirurgia de emergência. Nesse meio tempo tenho aulas na maternidade.

O coro anti-gato baseia-se na mais profunda ignorância em mitos e apresenta de forma terrorista seus argumentos catastrofistas, exceto que não são argumentos e sim crendices. Podemos resumir sua posição com "gatos fazem mal para grávidas e bebes".

E o curso na maternidade não cita gatos. Mas fala do grande perigo representado pelos palpiteiros e seu pseudo-conhecimento. Diz a enfermeira: "na época que seus pais nasceram, não se limpava ou mexia no coto umbilical do recém nascido. Hoje sabemos que isso foi responsável por um alto índice de mortalidade infantil, a Síndrome da Morte Súbita. E os palpiteiros dirão que foram criados assim, ou criaram seus filhos assim, e não morreram".

Hospitais são lugares em que as pessoas vão pra morrer ou pra nascer, ou mais exatamente, um lugar onde arrancam seu sangue, sua pele e os olhos da cara. O que é redundante, afinal o plano de saúde faz a mesma coisa. A conta que ambos querem pendurar na gente é de meros sete mil e quinhentos, em que até suspiros são cobrados e também superfaturados.

O esquadrão anti-gatos recusa-se a apresentar argumentos, impossibilitando qualquer conversa civilizada sobre o tema. Eles pontificam: "os gatos vão causar doenças", mas não sabem quais. Não citam sequer a mais óbvia, toxoplasmose, de modo que não posso explicar que, de acordo com o ciclo de vida do parasita, é impossível um gato que não sai de casa e não come carne crua contraí-la. As crenças medievais do esquadrão remontam à idade média e à bruxaria.

É claro que o curso da maternidade não é exatamente um laboratório de ciência. Afinal ganhamos um curso-card, que dá desconto em lanchonetes, estacionamentos e congelamento de células-tronco do cordão umbilical. Os caras do congelamento parecem ser os patrocinadores do curso. O ponto alto são os outros casais de futuros pais. Quem são, de onde vem, como se conheceram, se planejaram ou não, uns dormem, outros anotam tudo que a enfermeira diz, enfim, uma pequena sala com casais de todos os tipos.

A proposta do esquadrão é "livre-se dos gatos". O esquadrão é incapaz de compreender que se possa amar bichos de estimação. Propõe que sejam abandonados no mundo preventivamente. Para o esquadrão, o amor aos gatos é descartável, ou incompatível com o amor aos filhos.

Ao contrário do que se pensa, a ciência não é uma nova religião. A religião acredita em certas coisas e essa crença não vai mudar nunca, aconteça o que acontecer. A ciência é capaz de propor que é a Terra que gira em torno do sol. A religião, que gostava da idéia da Terra no centro do universo, queimou um monte de gente por causa disso. Já dizia o Tequila, filósofo medieval: "a verdade dói e a mentira é o único remédio"

Os gatos de certa forma são crianças que nunca crescem (ao contrário de crianças que não se permite que cresçam) e toda separação é dolorosa. Mesmo assim, se houvesse alguma razão legítima que incompatibilizasse meus gatos e minha filha, eu procuraria (aos prantos, possivelmente) um novo lar para os gatinhos.

Mandei alguns documentos com informações sobre gatos, gestantes e bebês. Recebo uma resposta dizendo "não li e não ligo, afinal já sei de tudo". Respostas assim fervem-me o sangue. Quem sabe, para felicidade geral da nação, um dia eu aprendo a ficar quieto.

Eu sei que estou muito mais para reles, porco, vil, irrespondivelmente parasita e indesculpavelmente sujo do que para semideus. No fim, somos todos meio cegos e vivemos na escuridão. Menos os gatos, que enxergam no escuro.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

O que voce faz quando aparece na porta o primeiro vagabundo a tocar a campainha?

É a pergunta que fiz pro meu sogro, pai de três filhas.
A resposta foi uma expressão de espanto e estranhamento, seguida da frase:
"Campainha? Vc dá graças a deus. Finalmente vai conhecer um dos desgraçados que saem com sua filha."

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Life is an adventure

Essa é a trilha desses dias. Baixei a discografia completa do Violent e essa música tem tocado mais. Temos mais três meses, com sorte, até ao nascimento. O quarto dela ainda é um depósito de caixas da mudança. E essa louca transição de filho para pai? Começa com os gatinhos, Mao-tse e Lacan, ganha velocidade na convivência com a minha enteada, Maricotinha, e terá como cerimônia de graduação a chegada da Lucia.

Ontem Maricota perguntou:
- Rê, se você fosse escolher os gatos de novo, você escolheria os mesmos gatos?
Pensei bem e respondi:
- Sim. Eles são bagunceiros, quebram coisas e fazem barulho, mas são os meus gatos e tenho muita sorte de ter adotado eles. Eles são os gatos do meu coração. E você, se fosse eu adotando os filhotes, vc escolheria o Mao e o Lacan ou outros gatos?
Uma pequena pausa e a resposta vem com convicção - os mesmos gatos!

Sete anos e ela já tem questões sobre o amor ser incondicional (ou não). Apesar de horas antes o Lacan ter roubado os bifes crus que seriam o jantar de dentro de um tupperware, é claro que a pergunta é muito mais sobre ela mesma que sobre os pobres felinos larápios...