Lucia faz quatro meses hoje.
O bebê imprime seu ritmo acelerado de crescimento ao calendário dos pais. Quando se tem trinta e poucos anos, a diferença entre um ano e outra é irrisória, súbito já foi mais um ano e foi igual ao outro. Com o bebê as coisas mudam todo mês, toda semana, todo dia até. O bebê sofre saltos quânticos enquanto dorme, e acorda cada dia com mais inteligência no olhar.
Lucia experimenta com a linguagem e diariamente acrescenta o que a Ana chama de "fonábulos" novos. É uma delícia de ouvir. Também me adaptei aos tempos e faço campanha pra que ela fale "mamãe" primeiro, dizem que dorme-se mais assim - adivinha quem ela vai chamar? Mas estou certo que a primeira coisa que ela vai dizer é "Saigato!!", o que nos traz de volta à hipótese do bebê japonês.
Isso me lembra de outra coisa interessantíssima: eu! Me aproximo do berço em silêncio. Lucia está séria e olhando para o outro lado as borboletas do acolchoado do berço. Chego perto e digo "luciaaaaaaa" e ela se vira, me vê e abre um sorriso como um sol nascente, acompanhado e faz uma expressão tão deliciosa que eu tenho vontade de chorar toda vez.
Fora que, veja bem, o amor pela mãe é indiscutível, mas tem essa coisa do suprimento de leite, de ser extensão simbiótica de si mesmo. Ela fez parte da mãe e não tem dúvidas sobre isso. Já o pai, que não tem leite a oferecer, fica excluído de toda essa conexão mamífera. Em troca, sabe que o sorriso do bebê ao pai é completamente desprovido de interesses lácteos. E mais, o bebê aprecia que mesmo sem a certeza da paternidade, você esteja aí pra ele. Ele faria um high-five mas sua coordenação ainda não permite. Lucia já usa os braços pra tentar pegar coisas mas nem sempre acerta a direção do braço, parece uma maquina de pescar ursinho de parque de diversão.
Ela, que cabia no meu antebraço, já ultrapassou os seis quilos. fazendo jus à sua ascendência judia, ela fecha a mão com muita força, muitas vezes puxando cabelos compridos ao alcance, ou torcendo o mamilo de seu tio Jacques.
Lucia é sossegada e estradeira, já fomos duas vezes pra praia e ela viaja com uma tranquilidade ímpar. Aliás, sossegada mesmo. Um belo dia, há algumas semanas atrás, ela dormiu a noite inteira, e desde então dorme a noite toda. E não acorda chorando - ela acorda, sorri, e começa a falar com as borboletas, esperando tranquilamente que alguém venha dar-lhe bom-dia. De noite ela tem lutado com o sono, recusando-se a ir dormir. Ela quer é ficar no colo e na sala. Aí sim ela chora, faz beiço, fica dizendo "ablublublu" em tom sentido.
Ah, e os gatos... Esses estão muito sossegados, mas morrem de ciúme. Toda vez que vou trocar as fraldas da Lu no quarto dela, ou dar banho, os dois ficam parados na porta, miando.
Desse jeito a primeira palavra dela vai ser é "miau". Ou ainda, "Neko-Chan cho kauaii!"!