Passamos aquelas férias deliciosas na praia, onde também se encontravam miríades de insetos sugadores de sangue, que por sua vez não estavam nada de férias. Ano passado as picadas de mosquito na Lucia formaram bolinhas vermelhas que demoraram a passar mas enfim passaram. As picadas deste ano seguiram o mesmo rumo, porém sem desaparecer. Quando voltamos à São Paulo elas começaram a piorar, apareceu um pontinho de pus, depois começaram a endurecer em volta e formar os tais platôs.
Nosso excelente veterinário, digo, pediatra, sugeriu após consulta telefônica um creme antibiótico. Se ele abrisse um serviço de 0300 ele seria um homem rico. O problema melhorou mas não sumiu, então levamos pra ele ver. Ele achou por via das dúvidas que seria melhor um dermatologista olhar.
A essas alturas a mais feia das lesões, a do tornozelo, parecia aquelas coisas que aparecem em perna de mendigo, quando a perna sai por debaixo do cobertor sujo. Fomos pro dermatologista e como se fosse um episódio de House, seguiu-se um diagnóstico diferencial e reduzimos para duas opções:
- Ectima: Os bebês nascem desregulados, alguns com imunidade de menos e outros com imunidade demais. A lucia seria esse segundo tipo, e sua super-imunidade-wolverine-desregulada criou uma lesão que deixou a pele vulnerável a streptococos que residem na própria pele, que infectam ao coçar. Coçar ainda serve para semear a infecção em outras partes da pele, responsável pelo surgimento de novas lesões. Tratamento com creme com corticóide e antibiótico local.
- Leishmaniose. Quase surtei na hora achando que pudesse ser algo ainda pior, como lepra, mas era somente a horrível e temida "úlcera de bauru", descoberta quando da abertura da estrada de ferro pelas matas de bauru, onde vivia o causador desse porcaria. Pra saber se era isso teríamos que fazer uma biópsia. Biópsia pra quem não sabe é arrancar um pedaço vivo de você pra levar pra um laboratório e criar um exército de clones, ou algo assim.
Então na linha House de tratamento, resolvemos escolher a doença com tratamento mais suave e ver se funciona. Disse o médico algo parecido com "imagina se a gente faz a biópsia, sendo necessário dopar o bebê, amarrar o bebê, cortar fora um pedacinho de bebê (sem anestesia local, ao que parece) e traumatizar pra sempre o bebê, só pra descobrir que poderia ter curado com creminho?"
O lado bom é que ambas são curáveis. Tem uma pequena chance de deixar marca, mas como as lesões não são profundas, pode não deixar nada ou algo quase imperceptível. Já estamos tratando com creminho e os machucados regrediram consideravelmente. A pequena está ótima, bem-humorada, testando seu giz-de-cera no armário da sala e na tv de lcd e a lesão mais incômoda é no pobre coração de seus pais.