Passei minha infância cantando "Hoje é domingo".
Eu tinha certeza que a música dizia "Hoje é domingo, pé de cachimbo".
Achava fantástico que uma música fosse tão surreal, imagina, uma árvore que em vez de frutos, dá cachimbos. Eu adorava brincar com o cachimbo do meu pai, que afinal cheirava melhor que os charutos, e tinha o Sherlock Holmes como garoto propaganda.
Fora isso me chamava a atenção toda a cadeia de violência, justificada por tipo de material:
"Cachimbo é de barro, bate no jarro" (Não sei o que o jarro fez, talvez o cachimbo estivesse esvaziando-se apenas.)
"Jarro é de ouro, bate no touro" (Seria o poder financeiro sobrepujando a força bruta, crueldade com os animais, ou o jarro passando a violência pra frente?)
"Touro é valente, bate na gente" (Touro valentão filho da puta, o que que eu fiz pra você? Ou ainda, quem é touro na minha família? Hmmm, minha mãe.)
"A gente é fraco, cai no buraco" (O que estavam pensando nessa hora? Na condição humana como um todo? Porque eu e o meu irmãos a gente não caía em buraco à toa. Não muito. Mais quando minha irmã empurrava. Ele deveria ser touro também.)
"O buraco é fundo, acabou o mundo" (E agora? Ficção científica? O proverbial poço sem fundo? Ou uma metáfora da morte como fim inevitável da condição humana?)
Mas foi só cantando essa música pra Lulu que me dei conta do óbvio:
"Hoje é domingo, PEDE CACHIMBO."
(facepalm)
Pior que essa só quando você é criança, tira caca do nariz e os adultos perguntam se você está limpando o salão, ou se vai ter festa hoje. Eu, pobre, imaginava a narina como um salão de baile, com valsas em meio à imensas crostas, ou que talvez fosse feio aparecer em festas com caca dentro do nariz. Só muito depois, e em situações inenarráveis, que eu me dei conta de que tipo de festa isso tudo se referia...
Domingo o Quê???????